Nina Silva: 6 principais achados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil

Resultados do levantamento lançam olhar sobre o empreendedorismo negro no país e possível busca por soluções
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Nina Silva: 6 principais achados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil
Quando falamos especificamente de empreendedorismo negro, 61,5% dos empreendedores são mulheres e os setores predominantes são comércio, comunicação e cuidados

No Brasil, 40% dos adultos negros são empreendedores, mas conhecemos pouco sobre essas histórias. Ainda assim, números que mostram a importância desse mercado não faltam: estamos falando de 56% da população do país que movimentam R$ 1,73 trilhão por ano.

Por isso, em parceria com Inventivos e Movimento Black Money, a RD Station decidiu analisar as características do empreendedorismo negro. Procuramos entender como elas podem diferir em suas formas e desafios do que comumente conhecemos quando não há um recorte específico de raça.

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A Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil foi realizada entre 12 a 21 de maio deste ano. Foram ouvidas 1.016 pessoas, mas apenas 701 respostas foram consideradas válidas para a análise pela completude do questionário. O estudo foi concebido, desenhado e analisada majoritariamente por pessoas negras. 

O relatório completo com os resultados está disponível em PDF, clicando na imagem abaixo.

Nina Silva: 6 principais achados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil

Veja a seguir os 6 principais achados da pesquisa Afroempreendedorismo Brasil:

1. O afroempreendedorismo é, majoritariamente, feminino, solitário e está fortemente ligado à indústria de cuidados

O estudo Female Founders Report 2021, produzido pelo Distrito Dataminer, em parceria com a B2Mamy e Endeavor, destacou que apenas 4,7% das startups brasileiras foram fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% por mulheres e homens.

Quando falamos especificamente de empreendedorismo negro, vemos uma realidade bem diferente: 61,5% dos empreendedores são mulheres e os setores predominantes são comércio, comunicação e cuidados. 

Em outra pesquisa organizada pelo Sebrae, foi revelado que esses negócios criados por empreendedoras negras representam 17% do total no país e que, entre essas mulheres, quase metade (49%) são as responsáveis financeiras pelo seu núcleo familiar. 

São mulheres que empreendem por necessidade e se apoiam em atividades historicamente vinculadas ao seu grupo. As indústrias predominantes refletem uma herança ancestral de cuidados coletivos, mas também, infelizmente, a herança escravocrata de estar a serviço do outro ou da outra.

2. Toda ideia de empreender vem de uma dor. E as dores que vimos na pesquisa são ligadas à questão racial

Empreendedores visualizam oportunidades de negócio a partir de uma dor comercial. Empreendedores negros também partem de uma dor, mas geralmente ligada a uma questão racial.

Assim, vemos pessoas como a Zarah Flor, uma de nossas entrevistadas, que criou um protocolo para depilação a laser para peles negras. Ela se cansou de ver clientes mal atendidas em clínicas e peles queimadas pelo desconhecimento de como tratá-las. 

E AINDA: Quais são as conquistas das mulheres ao longo da história

Também temos Maurício Delfino, que fundou a Da Minha Cor ao ver a dificuldade que negros e negras tinham para usar toucas de natação. Hoje, ele exporta seu produto para países africanos. 

Como podemos ver, são empreendedores ocupando um espaço que não havia sido pensado para eles até então. 

Nina Silva: 6 principais achados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil
Toucas Da Minha Cor

3. Apesar da alta escolaridade –61,9% tem, pelo menos, ensino superior– apenas 15,8% dos entrevistados possui renda familiar acima de seis salários mínimos

O empreendedorismo tem sido a alternativa escolhida por muitas pessoas negras, principalmente as periféricas, para obter o sustento e melhores condições de vida para as suas famílias. Segundo o Índice Folha de Equilíbrio Racial, a proporção de negros de 30 anos ou mais com diploma universitário se aproximou de sua representação populacional em 23 das 27 unidades da federação, entre 2014 e 2019.

O desafio é refletir a alta escolaridade em aumento de renda. Em 2012, início da série histórica do IBGE, o rendimento médio mensal dos brancos foi 57,3% maior que dos negros. Em 2019, quase nada havia mudado: a população branca recebeu, em média, 56,6% a mais que a parcela negra.

A escolaridade não determina um lugar de oportunidade socioeconômica quando se trata da população negra no Brasil.

4. O mundo da nuvem ainda é branco

Quando comparamos dados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil com informações do levantamento Panorama PMEs, conduzida em 2020, vemos como as indústrias em que os empreendedores focam são distintas. Enquanto software e cloud aparecem em primeiro lugar no levantamento sem recorte de raça junto ao público pesquisado pela RD Station, o segmento nem aparece entre os 10 primeiros no afroempreendedorismo.

Nina Silva: 6 principais achados da Pesquisa Afroempreendedorismo Brasil

5. Monetização e estratégias digitais estão entre as principais dificuldades dos negócios

Os afroempreendedores enfrentam diversos obstáculos, mas colocam como as duas principais dificuldades o desconhecimento de estratégias digitais (50,9%) e formas de tornar seus negócios rentáveis (59,2%).

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O marketing negro usa muito as redes sociais, mas tem mais dificuldades com software de marketing e métodos de pagamento. Por concentrarem muitas tarefas (61,2% dos empreendedores trabalham sozinhos), acabam não explorando e não tendo acesso a estratégias que incluem automação e análise de dados, o que lhes daria mais possibilidades de escalar seus negócios.

6. Acesso a crédito e preconceito racial ainda são os maiores desafios

A dificuldade de acesso ao crédito lidera o ranking de desafios no afroempreendedorismo, com 40,4% das respostas. Embora o processo de concessão de empréstimos esteja evoluindo com sistemas de inteligência artificial, dados como CEP e receita mensal funcionam como marcadores étnicos que fazem com que obter crédito seja mais difícil para os negros.Alan Soares, do Movimento Black Money, aponta possíveis alternativas para o problema, como o crédito solidário, no qual uma pessoa leva mais de um avalista, e cooperativas de crédito para afroempreendedores, que são linhas exclusivas do BNDES (ações afirmativas). Mas Soares diz que a influência do racismo não para por aí. “A sociedade brasileira ainda não está disposta a admitir o preconceito existente, assim como combatê-lo”.

Nina Silva é empresária, escritora, mentora de negócios, palestrante e colunista da MIT Sloan Review e UOL Economia. Enquanto empresária, Nina é CEO e uma das fundadoras do Movimento Black Money e D’Black Bank

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