Como ensaios fotográficos ajudam mulheres a quebrar padrões e resgatar a autoestima

Além da autoaceitação e o amor próprio, as produções também são capazes de levar à cura e libertação de relacionamentos abusivos
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“O objetivo do Nós, Madalenas foi tirar a mulher desse lugar de objeto e trazê-la para um lugar de autonomia e protagonismo, tanto sobre os corpos, quanto sobre as narrativas”.

A fotografia é capaz de registrar e eternizar momentos. Ao longo dos anos, a evolução das técnicas, da qualidade e das formas de fotografar são inegáveis. Porém, mais do que luzes, acessórios e lugares, a ressignificação da fotografia também tem ganhado espaço.

Em tempos não muito distantes, as fotos com qualidade profissional podiam ser vistas apenas em grandes eventos, com pessoas famosas ou modelos estampadas em capas de revistas de moda. O ensaio fotográfico fora do luxo e da fama, principalmente para mulheres, ocorria em festas de 15 anos, por exemplo. Mas, não havia a ideia de contratar um profissional para ser fotografada quando e como quisesse.

Com a chegada em massa das redes sociais, a ideia de barriga, pernas, boca, e cabelos perfeitos passou a ser mais vista no dia-a-dia das mulheres, já que as “mulheres ideais”, parecidas com as modelos de capas de revistas, passaram a aparecer com frequência nas telas dos aparelhos digitais, que mostram ideias de vidas e corpos sem defeitos.

Porém, é comum encontrar nos dias atuais mulheres de todos os tipos, etnias, idades e tamanhos diferentes que perderam o amor próprio e a autoestima por deixarem com que os padrões criados por filtros, edições, maquiagens e procedimentos estéticos as afetassem.

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A palavra autoestima significa “estima por si mesma”, ou seja,  gostar de se cuidar e ter confiança nas próprias atitudes e pensamentos. Porém, há mulheres que não se consideram bonitas ou atraentes o suficiente, como diz uma pesquisa realizada pela empresa de cosméticos Dove. Nela, apenas 4% das mulheres entrevistadas no mundo afirmaram se considerar bonitas, ao mesmo tempo em que 80% delas disseram que existe alguma beleza em todas as mulheres.

“Eu não conseguia mais me aceitar como era, tinha vergonha do meu corpo. Não gostava e não queria mais tirar fotos”. Este é o caso da estudante de medicina veterinária Julia Freitas, de 21 anos, que recorreu a um ensaio fotográfico na busca pelo resgate da sua autoestima e voltar a se ver como uma mulher bonita, independente dos padrões impostos.

“Eu fiz um nu artístico e, enquanto era fotografada, só conseguia pensar que as fotos iriam ficar horríveis, não queria nem ver”, disse a estudante, que complementou ao dizer que essa sensação desapareceu ao ver o resultado de apenas uma foto ainda na câmera do fotógrafo Valmir Dacil. “Quando ele mostrou, falei ‘nossa, eu estou amando’, e depois que vi a primeira, já voltei com a cara e com a coragem, e extravasei minha energia para ficar do jeito que eu queria que ficasse”, disse ela.

Ao falar sobre a autoestima, Julia relatou que acredita que a fotografia tem o poder de fazer a mulher se ver com outros olhos. “É diferente se olhar no espelho e se olhar em uma foto. Na foto, a gente pensa no quanto aquela imagem registrada representa e no que se sente ao ver o resultado”, disse ela, que complementou ao falar que as mulheres costumam saber o que existe por trás de uma foto, como arrumar o cabelo, passar maquiagem. “E nem sempre fica bom, porque nós somos muito criteriosas com nós mesmas. Acho que o maior papel da fotografia nesse ponto é melhorar nossa autoestima e proporcionar a autoaceitação e o autoreconhecimento”, finalizou a jovem.

Já a fotógrafa Maria Ribeiro contou a história de outro ângulo: por trás das lentes. Formada em Audiovisual, trabalhou em uma equipe de cinema publicitário como assistente de moda e publicidade. “Acompanhava os bastidores da criação de um padrão estético que consumimos enquanto sociedade e que, como resultado, fazia com que todas as mulheres do planeta, inclusive eu, se odiassem”, relatou ela.

Maria contou que via modelos famosas do mundo todo pessoalmente e, quando as via em capas de revista, pensava que eram pessoas totalmente diferentes. Sempre teve a noção de que as pessoas têm consciência de que fotos de grandes modelos e atrizes são editadas e manipuladas, mas enfatizou que, quem vê de fora, não consegue imaginar o quão grandes são as edições. “Eles não tiram uma celulite ou uma marquinha, eles mudam o biotipo da pessoa. Mudam as proporções até criarem algo que não existe”, relatou.

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A fotógrafa comentou que em um dos projetos que participou, as modelos relatavam problemas de saúde mental ao ver as imagens editadas e saber que seus próprios corpos não eram aqueles. “Elas se sentiam uma fraude e aquilo criava vários gatilhos para crises de pânico, ansiedade, distúrbios alimentares e depressão”, contou ela, que completou ao dizer “é um jogo de perde-perde. As modelos perdem porque sabem que não são daquele jeito e o público perde porque acha que as modelos são daquela forma”.

Maria começou a se apaixonar pela fotografia durante um intercâmbio para Dublin, Irlanda e, a partir do seu primeiro projeto, não deixou mais a câmera de lado.

O projeto, chamado “Nós, Madalenas”, surgiu tanto com a intenção de buscar a cura de traumas pessoais, como com o desejo de realizar algo realmente relevante e diferente do que ela fazia antes. Logo ele se tornou um livro, publicado em 2015, que resultou no prêmio UN Women, fomentado pela ONU Mulheres.

Depois de enfrentar dificuldades para encontrar um espaço, Maria conseguiu realizar o projeto, que iniciou apenas com a ideia de retratar algumas amigas. O resultado final foi o registro de 100 mulheres de todas as idades, cores e biotipos.

O livro reuniu, além das fotos de todas as mulheres, um relato pessoal de cada uma delas, em que compartilhavam suas próprias histórias. “O objetivo foi tirar a mulher desse lugar de objeto e trazê-la para um lugar de autonomia e protagonismo, tanto sobre os corpos, quanto sobre as narrativas”, contou.

Ao ser questionada sobre o valor da fotografia para a autoestima da mulher, Maria enfatizou que a ferramenta “pode ser um instrumento muito poderoso de reconexão e reencontro com a própria imagem, um instrumento maravilhoso de cura e de reforço do protagonismo e autoestima.”

Quando está fotografando, ela relata que tem a sensação de plenitude. Mesmo com todo o trabalho que existe antes, durante e depois dos ensaios, enquanto fotografa, pensa que está fazendo exatamente o que nasceu para fazer e se sente grata. Já quando falou sobre os relatos que recebe das clientes, respondeu com sinceridade e não contendo o riso: “ah, eu choro”.

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Além da autoaceitação, autoestima e amor próprio, ensaios fotográficos também levam à cura e libertação. Maria contou que um dos relatos que recebeu e mais se emocionou foi o de uma mulher que disse ter conseguido sair de um relacionamento abusivo depois de ter feito um ensaio. “Isso mostra como você se fortalece quando cura o relacionamento abusivo que tem consigo mesma. Isso proporciona à mulher a possibilidade de fechar outras portas que se abriram para estabelecer relacionamentos abusivos na vida”, encerrou ela.

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