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Como um concurso de beleza fez Mayara Moura criar ações de impacto social para jovens da periferia

Empreendedora social criou um projeto que fortalece a autoestima de crianças e jovens de regiões socialmente vulneráveis
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Divulgação
Mayara Moura (Foto: Divulgação)

Nascida e criada em Cumbica, na periferia de Guarulhos, Mayara começou a entender algumas questões sociais que pairavam sobre sua vida na escola. “Eu digo que vivenciei a solidão da mulher negra desde a infância. Em casa, eu era uma princesa, mas na escola faziam piadas com meu cabelo e minha boca. A criança que sonhava em ser artista foi morrendo”, recorda. “Eu tinha vontade de trabalhar com moda algum dia, mas não contava isso para as pessoas com medo de rirem de mim.” Ao se enxergar como um patinho feio, Mayara chegava a achar que os elogios que ouvia fora do colégio sobre sua beleza eram piadas de mau gosto. 

“Eu quero ser paquita da Xuxa”, dizia Mayara, aos quatro anos, quando seu pai perguntava sobre os seus sonhos. Celso Moura sabia que esse, provavelmente, não seria o caminho da filha, mas sempre apoiou suas ideias – das mais comuns até as mais mirabolantes. “Ele sempre me disse que tudo era possível”, conta a empreendedora, que teve uma infância regada de positividade até a fase escolar. No colégio, o baque foi entender que o mundo real não era tão amigável quanto o universo familiar no qual vivia. 

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Aos 14 anos, fase em que suas amigas já estavam começando a namorar, sua insegurança ficou ainda maior. “Me chamavam de nega do cabelo duro, falavam que meu nariz era muito grande e diziam que jamais ficariam comigo. Fui internalizando tudo isso.” Na mesma época, seu pai a levou em uma agência de modelos pensando que uma sessão de fotos ajudaria na retomada da autoestima. Talvez com um book bem produzido, a jovem enxergasse sua beleza novamente. O estabelecimento, no entanto, era uma farsa: recebeu o dinheiro, mas não produziu um material bom o suficiente para que Mayara desse seus primeiros passos no mundo da moda – ou para que voltasse a gostar  do que via no espelho.

Dos 15 aos 21 anos, a menina cancelou os planos de virar modelo. No entanto, por mais que fugisse do assunto, parecia que algo sempre a levava de volta a ele. Como atendente de uma companhia de táxi no aeroporto de Guarulhos, os clientes frequentemente elogiavam sua aparência e a aconselhavam a trabalhar com o mercado da beleza. 

“Eu estava sempre maquiada para atender às pessoas e recebia muitos elogios. Isso fez com que um amigo insistisse para que eu participasse do concurso de Miss Guarulhos. Ele disse que me ajudaria com o vestido e a produção de maquiagem e cabelo. Ri muito, achei que estava zoando com a minha cara”, brinca. Após algumas conversas, ela viu que era sério. Melhor ainda: ela mesmo começou a cogitar a proposta.

Ainda insegura, mas com o apoio da família e dos amigos, Mayara se inscreveu no concurso. Não demorou muito para que os primeiros ataques raciais surgissem novamente. “No dia da inscrição, ouvi que aquele lugar não era para mim. Eu era negra e da periferia. Meu lugar era como passista em escola de samba.” Essas agressões a levaram de volta à infância e fizeram com que a jovem levantasse a cabeça e decidisse levar o concurso adiante como um ato político. Não era mais um simples caminho para encontrar autoestima. Era um protesto para mostrar que ela podia estar em qualquer lugar que quisesse – assim como seu pai dizia quando era criança.

Para a revolta de alguns, depois de dois meses de desfiles e testes, Mayara chegou à final do concurso. “Chegar até ali já era uma vitória. Eu estava quebrando barreiras. Um dia antes do desfile final, fizeram uma votação popular na internet, apenas para saber a opinião das pessoas sobre quem seria a próxima miss. A minha foto nem estava disponível para a votação. Quando eu liguei para reclamar, falaram que eu não estava entre as mais cotadas para vencer.” No entanto, àquela altura, Mayara já estava segura sobre a sua força, e o episódio só fez com que ela atravessasse as passarelas ainda mais determinada. 

“Todo mundo me rotulava. Não queriam me ouvir. Então, na noite do concurso, quando me fizeram a típica pergunta sobre os meus sonhos, eu respondi que queria mostrar para o mundo que havia muita beleza na periferia”, lembra. De lá, ela seguiu para casa com uma faixa de Miss Guarulhos 2013, uma coroa e um novo propósito. 

A BELEZA NA PERIFERIA

“Hoje, eu não preciso de um concurso para me sentir bonita”, diz a empreendedora. Porém, Mayara sabe que essa foi uma etapa importante para estabelecer uma nova fase em sua vida. “Mesmo com todo o apoio do meu pai, um dia eu parei de me achar bonita. Não queria que isso acontecesse com outras meninas e meninos.” Mas, embora sua vontade fosse começar a ajudar esses jovens no dia seguinte, ela não sentia segurança financeira para tirar suas ideias do papel. 

“Eu não tive apoio algum da minha cidade após ganhar o concurso de miss. Me prometeram assessoria para seguir a carreira de modelo, mas isso não aconteceu. Ganhei apenas cerca de R$ 2 mil como prêmio e tive que seguir sozinha”, revela. Como a empresa na qual trabalhava no aeroporto havia falido, Mayara começou a procurar trabalhos como figurante em comerciais e novelas. O primeiro foi para a Caixa Econômica. “Fiquei um ano trabalhando desse jeito. Tive oportunidades legais, mas não era algo estável. Eu também queria começar o Beleza na Periferia, mas achava que precisava ser rica para isso. Em determinado momento, comecei a ficar cansada de nadar contra a maré.”

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Para Mayara, o racismo foi um forte ingrediente no fato de não ter sido apoiada depois do concurso. “É como se eu não tivesse ganhado. Como se não bastasse, as pessoas também me atacavam nas redes sociais dizendo que eu não representava Guarulhos. E ninguém me defendia.” Por mais de um ano, a modelo viveu sem saber o que fazer com o título que tinha ganho. Chegou até a arrumar um emprego na área de contabilidade da Câmara Municipal de Guarulhos e vender roupas para complementar a renda. Tudo isso até conhecer o evento “Cresça com o Google”, da empreendedora social Ana Fontes, responsável pela Rede Mulher Empreendedora (RME), em 2018. 

“Comecei a ter contato com mulheres que estavam começando algo grandioso com o que tinham nas mãos. Elas não precisavam de muito dinheiro para iniciar seus projetos. Aquilo me inspirou. Essa conexão começou a tirar o Beleza na Periferia do papel.” Na mesma época, fez um curso da aceleradora B2Mamy sobre os primeiros passos para abrir um negócio. “Essa nova rede de apoio fez com que eu decidisse divulgar minha ideia no Facebook. Fiz um post falando sobre a possibilidade de fazer palestras e rodas de conversas com jovens da periferia. Em poucas horas, havia mais de 500 comentários. Bombou”, conta, rindo. Ao perceber o potencial do projeto, Mayara fez um curso de educadora social e começou a trabalhar como voluntária escutando menores de idade em centros de acolhimento. Em pouco tempo, também passou a visitar escolas públicas oferecendo seu tempo para conversar com crianças e jovens.

“Eu tive uma troca real com eles. Foi quando eu entendi verdadeiramente que a dor da falta de autoestima é paralisante”, reflete. “Então, o Beleza na Periferia nasceu com o objetivo de fortalecer a autoestima e conectar esses jovens de regiões socialmente vulneráveis com oportunidades. Quando eu vi o quanto isso poderia impactar outras vidas, nunca mais parei. Saí do meu emprego com carteira assinada e foquei apenas no projeto. Para não ficar totalmente sem dinheiro, vendia algumas roupas.”

Na pandemia, quando as visitas às escolas e centros de acolhimento se tornaram inviáveis, o projeto precisou se adaptar à nova realidade. “Como eu vou falar de sonhos com pessoas que não tem o que comer?”, questionou a empreendedora, que se mobilizou para arrecadar cestas básicas para as famílias da periferia. Com apoio e divulgação da mídia, conseguiu a  ajuda de empreendedores e empresas, como Magazine Luiza. Na Páscoa dos anos de 2020 e 2021, a Cacau Show também patrocinou doações. “Consegui mobilizar a cidade durante essa fase, e isso fez com que eu percebesse que não precisava ter uma empresa milionária para começar a ajudar a sociedade”, conta. “Reunimos 100 voluntários e impactamos 15 mil famílias com doações durante esse período. Todas as cestas foram feitas com produtos de qualidade, porque eles merecem e isso é um movimento de autoestima também. Muitas crianças recebiam os ovos e perguntavam se podiam levar mesmo. Estranhavam o fato de não estarem quebrados.” 

Nesse meio tempo, o Beleza na Periferia também começou uma iniciativa batizada de “Impacta Jovem”, com o objetivo de ajudar os jovens a ingressarem no mercado de trabalho, com o apoio da Universidade de São Paulo (USP). Por meio de palestras e mentorias, o projeto ensina a elaboração de currículos e prepara para entrevistas de emprego. Por mais curioso que pareça, a crise sanitária proporcionou uma fase de crescimento, tanto para a iniciativa social de Mayara quanto para sua carreira como modelo. Em 2020, ela conseguiu papéis em comerciais de grandes marcas, como Bruna Tavares e Avon. 

Hoje, aos 29 anos, Mayara trabalha como palestrante, empreendedora social e modelo, participando de projetos como o Grupo Mulheres do Brasil – que integra o Comitê de Igualdade Racial – e o Comitê Meninas do Brasil. Com parcerias cada vez mais frequentes, o sonho agora é adquirir uma sede própria, que abrigue um instituto na periferia de Guarulhos onde os jovens possam passar o tempo. “Durante esse tempo, percebi que há muitos talentos escondidos pela falta de autoestima. Espero conseguir mudar um pouco esse cenário. Quando deixamos de sonhar, não é só a gente que perde”, conclui.

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