Conheça Liliane Tie, uma das mulheres por trás da rede Women In Blockchain Brasil

Principal objetivo do projeto voltado para o público feminino é democratizar um conhecimento que ainda está restrito a uma camada privilegiada
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Liliane destaca que o empenho para atrair mulheres é grande, mas explicar o que é blockchain não é tão simples, principalmente porque ainda há muito preconceito com transações de moedas digitais

Curiosa e apaixonada por tecnologia, Liliane Tie, 45, é uma das maiores referências no Brasil quando o assunto é blockchain. Ela é uma das fundadoras da rede Women In Blockchain Brasil, comunidade voltada ao apoio e inclusão das mulheres na nova economia, atua como consultora de projetos e engajamento de stakeholders, e é professora na PUC Minas.

Apesar de muito se falar dessa nova tecnologia que, na prática, promete descomplicar processos do dia a dia, o blockchain ainda não é totalmente democrático. Segundo o levantamento “Distrito Blockchain e Criptomoedas Report”, divulgado em 2020, 181 startups brasileiras têm blockchain e criptomoedas como foco comercial, mas apenas 12,2% dos sócios destas empresas são mulheres. Os negócios são tipicamente liderados por homens paulistas, com 38 anos, em média.

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As estatísticas eram e ainda são desfavoráveis às mulheres, mas o fato de trabalhar com dados há algum tempo instigou Liliane a tentar entender o que está por trás da tecnologia do blockchain. Graduada em Ciência da Computação, ela atuou por muitos anos como administradora de dados em empresas do setor privado. 

“Eu sempre fui uma profissional da área técnica, as demandas chegavam para mim e eu não sabia muito bem porque tinha que executar aquilo. Mas, no fundo, queria entender a razão por trás dos dados, justamente por trabalhar com aquilo por mais de dez anos. Eu conseguia ter uma visão geral dos sistemas e das empresas, e por essa inquietação, sempre buscava projetos nos quais eu pudesse enxergar, do ponto de vista dos negócios, o que eu estava fazendo e qual era o meu papel. E foi nessas movimentações que ouvi falar de blockchain pela primeira vez em meados de 2015 e 2016. Eu nem sabia o que era isso”, lembra. 

Fora do Brasil, ela fez uma das maiores descobertas de sua vida

Na expectativa de realizar um sonho antigo, ela decidiu viajar pela a Europa. Apesar do objetivo principal ser o lazer, ela descobriu que em Portugal seria realizado o Web Summit, maior conferência sobre tecnologias, realizada anualmente no continente desde 2009. “Eu lembro que eles já falavam muito sobre blockchain e, no Brasil, eu só conhecia o bitcoin”, conta.

“Em São Paulo, quando eu frequentava os eventos e debates sobre bitcoin na Faria Lima, geralmente eu era a única mulher, chegava e ficava no fundo da sala só escutando, mas não entendia 100%. Queria saber da tecnologia, mas os homens só falavam de investimentos e negócios”, detalha Liliane. 

Women In Blockchain Brasil

Foi por volta de 2017 que ela, de fato, se jogou de cabeça no tema, muito influenciada pelo boom dos espaços colaborativos de tecnologia.

Ao lado de algumas amigas, fundou a rede Women In Blockchain Brasil. Os encontros eram tímidos no início e aconteciam em cafés de São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. Inicialmente, reuniam poucas mulheres, duas ou três que queriam falar sobre tecnologia, mas, aos poucos, a rede foi crescendo e os convites para participar de eventos em empresas e universidades também foram chegando.

O principal objetivo é democratizar um conhecimento que ainda está restrito a um público privilegiado e a um número pequeno de escolas especializadas nos grandes centros e que muitas vezes não conseguem atrair muitas mulheres. “Era uma época que não se falava muito sobre blockchain e criptomoedas. Nos encontros e palestras, a gente compartilhava com outras mulheres todas as novidades sobre esse mundo. Eu lembro que ia até cada mulher interessada e falava sobre a tecnologia.”

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Entre os principais eventos que o grupo já participou estão a Campus Party, a Virada Empreendedora da Rede Mulher e a DevFestBH.

Liliane destaca que o empenho para atrair mulheres é grande, mas explicar o que é blockchain não é tão simples, principalmente porque ainda há muito preconceito com transações de moedas digitais. “As pessoas ainda têm o imaginário de que tudo que é transacionado com criptomoedas é uma fraude ou crime”, lamenta. Ela cita ainda outro ponto que fortalece o desconhecimento: ainda falta uma grade curricular nas escolas, com educação financeira como disciplina para os alunos. “Negligenciamos isso e sentimos os efeitos até hoje. Se, na escola, a gente tivesse tido essa educação financeira e empreendedora, estaríamos em outro patamar.”

Com a pandemia da Covid-19, os encontros deixaram de ser presenciais e seguiram no fluxo virtual. A ideia é que, aos poucos, voltem a acontecer de forma híbrida. “Com o avanço da vacinação, vamos voltar. O nosso objetivo agora é chegar a mais lugares e a mais mulheres”, afirma Liliane.

Mulher no mercado da tecnologia

Um levantamento de 2019, feito pelo World Bank, mostrou que as mulheres não buscam o desenvolvimento da carreira no universo digital pelos paradigmas ainda impostos: família, carreira ou de que são poucos representadas e incentivadas por modelos femininos atuantes na profissão.

Liliane lembra que enfrentou desafios no início da carreira na área de tecnologia. Não foi fácil conseguir o primeiro emprego. E o principal motivo não era a crise financeira, mas simplesmente por não ser o perfil desejado, um homem.

“Existem muitas empresas hoje que já contratam mulheres para esse setor. Mas ainda ouvimos muitos relatos de como é difícil quebrar as resistência e a competição dentro dessas corporações. Por mais que a gente fale que precisamos ter representatividade das mulheres, parece que falta um próximo passo. Será que é só contratar? E depois disso, como é esse ambiente interno?”, questiona a professora.

O que pode ser classificado como Diversity Washing, “Lavando a Diversidade”, na tradução para o português. É o movimento de algumas marcas para realizar ações de diversidade e inclusão que geram mídia gratuita e aumentam o valor da marca. Mas essas práticas são não de fato inclusivas, uma vez que não fomentam políticas públicas ou constroem uma cultura interna que garanta o respeito às pessoas.

A especialista em blockchain acredita que algumas empresas já aprenderam sobre a cultura de inclusão que precisa de empenho além do mês de março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher. “O que acontece é que a diversidade está virando produto. Eu acredito que os profissionais de Recursos Humanos e Marketing têm essa vontade de mudar, mas precisa chegar nas gerências para impactar de verdade, não só vender uma imagem. Mas que bom que tem tudo isso acontecendo porque antes não tinha nem isso.”

Para os próximos anos, ela espera mapear as ações da Women In Blockchain Brasil alinhadas com as metas dos ODS (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU), que envolvem Educação, Igualdade de Gênero, Paz, Justiça e Instituições Eficazes. “Queremos dar mais visibilidade às mulheres e aos negócios que estão impactando com blockchain, os demais ODS.”

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