Mulheres de Paraisópolis estão na linha de frente na transformação social da comunidade

Favela funciona como uma cidade, com líderes das ruas e becos, e gestores que se uniram e ergueram uma lógica própria de funcionamento
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Em Paraisópolis, segunda maior comunidade da cidade de São Paulo, as moradoras ocupam a linha de frente quando o assunto é transformação social. A dinâmica da favela, que já foi até tema de novela global, funciona como uma cidade, com líderes das ruas e becos, e gestores que se uniram e ergueram uma lógica própria de funcionamento. 

Com mais de 100 mil habitantes e 21 mil domicílios em uma área de 10 km², na Zona Sul da capital paulista, Paraisópolis tem uma rede de ativistas locais que traz esperança aos moradores. As mulheres querem que a comunidade deixe de ser manchete nos jornais pela violência e se consagre como um grande polo de empreendedores e de mão de obra qualificada.

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O linkedIn das favelas

Rejane destaca que grande parte das pessoas cadastradas são negros e mulheres em busca de independência financeira

Com a ideia de atrair os empregadores e diminuir o desemprego no local, a pedagoga Rejane Santos, de 35 anos, fundou em 2017 o projeto Emprega Comunidades, plataforma gratuita que ficou conhecida como “LinkedIn das Favelas”. Hoje o projeto já tem mais de 17 mil pessoas cadastradas e ao menos três mil conseguiram algum trabalho por meio do serviço. Em 2021, 60 moradores da comunidade já foram empregados por meio da iniciativa.

“Nossa ideia sempre foi conectar os candidatos da periferia, que estavam fora do mercado de trabalho, com as empresas. Em muitos casos, a pessoa não consegue um emprego porque mora na periferia, é negro ou é mãe com filhos menores. Puro preconceito. Eu pensei que essa era uma possibilidade de apoiar essas pessoas ao mostrar o outro lado da moeda. Não é que somos os coitadinhos da favela, pelo contrário, tem muita gente qualificada, com ensino superior e com potencial muito grande, que só precisa de uma oportunidade”, explica Rejane. 

A sede do projeto fica num local conhecido como pavilhão, na entrada principal da comunidade, e funciona das 9h00 às 12h00, de segunda a sexta-feira. Além do recrutamento, também é oferecido aos moradores capacitações para melhorar o desempenho nas seleções de trabalho.

O programa também realiza atendimentos online e os interessados podem acessar uma página no Facebook para visualizar as vagas de emprego e realizar o cadastro. “O meu objetivo é transformar a vida das pessoas pela empregabilidade, porque quando alguém consegue um emprego, muda a vida de toda a família”, diz a fundadora do projeto.  

Rejane destaca que grande parte das pessoas cadastradas são negros e mulheres em busca de independência financeira, principalmente mães solteiras que são chefes de família. “Não recebemos currículo, fazemos o atendimento individual e cadastramos as informações no nosso banco de dados organizado. Quando uma empresa está procurando aquele perfil, nós enviamos todos os candidatos que preenchem os requisitos.”

Pandemia dificultou empregabilidade

Com a pandemia da Covid-19 e o desemprego cada vez mais em alta no Brasil, Rejane decidiu criar outro programa, o “Adote uma Diarista”, já que muitas empregadas domésticas perderam os seus trabalhos e a fonte de renda. “As diaristas foram dispensados até passar o período de quarentena e ficaram sem qualquer tipo de condição financeira para sobreviver, por isso foi criada uma campanha de financiamento coletivo. Não vamos permitir que passem fome”, explica Rejane. 

O projeto faz doações de cestas básica de alimentos, kit com itens de higiene e limpeza e R$ 300 para auxiliar nas despesas de aluguel e saúde. Um total de 1.032 se inscreveram e 150 receberam esse valor. “Não temos como ajudar todas com dinheiro porque nem sempre as doações chegam. Também ajudamos diaristas de outros estados, como o Rio de Janeiro, Minas. Gerais e Maranhão”, conta. 

Aplicativo para mapear empregos na região

A presidente Associação de Mulheres de Paraisópolis também explica que é com o empreendedorismo é muito forte em Paraisópolis

Flávia Rodrigues, 23, que é estudante, moradora de Paraisópolis e atual presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis, lembra que sempre teve vontade de mudar a comunidade onde nasceu. O sonho começou a se transformar em realidade em 2019, quando ela ajudou a criar um aplicativo de celular chamado “Quero Trampo”. 

O app, que ainda está em desenvolvimento, vai mapear vagas de emprego em estabelecimentos comerciais de Paraisópolis e conectar o empregador ao candidato morador da comunidade.

Ela explica que a ideia surgiu durante o curso intensivo de um mês de Design em Contextos Sociais, promovido pelo Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). Na época, o objetivo do curso era reunir jovens de diferentes localidades para criar soluções para uma comunidade específica. 

“Nossa ideia ao pensar no aplicativo é que os moradores da periferia sejam empregados dentro da própria comunidade e nos entornos, porque uma pessoa leva por volta de cinco horas para ir e voltar do trabalho por causa do transporte público. E, com isso, acaba não tendo tempo para aproveitar a família porque passa mais tempo nesses transportes”, explica Flávia. 

O projeto seria apresentado ao MIT (sigla em inglês para Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, em abril de 2020, mas por causa da pandemia foi adiado. A meta é atrair mais visibilidade para o aplicativo e ter futuros apoiadores.

Empreendedorismo facilita vida das mulheres

A presidente Associação de Mulheres de Paraisópolis também explica que o empreendedorismo é muito forte em Paraisópolis e que, com isso, muitas mulheres conseguem ter mais tempo com a família. “A mulher não precisa se preocupar com quem vai deixar o filho ou ser humilhada nas casas de famílias. Isso acaba dando autonomia e uma fonte de renda melhor, muitas vezes, já que são donas dos seus próprios negócios”, diz. 

Apesar de só ter 23 anos, Flávia já viveu muitas experiências. Ela nasceu em Paraisópolis, mas precisou morar uma parte da vida na Bahia com os seus avós porque sua mãe não tinha mais condições de mantê-la. Tem 12 irmãos e já passou por muita dificuldade financeira.

“Quando voltei para São Paulo, tentei morar de novo com a minha mãe, mas não deu certo. Aos 16 anos saí de casa e fui trabalhar. Com uma bolsa de 70%, consegui concluir a minha faculdade de Marketing e hoje faço pós-graduação em Urbanismo Social. Não foi fácil, mas consegui passar por essa fase dolorosa”, conta. 

O desejo de Flávia é que, assim como ela, outras mulheres moradoras de Paraisópolis tenham oportunidade de se qualificar e ter melhor condição financeira para conquistar independência. “Temos hoje muitos projetos sociais na comunidade para impulsionar o empreendedorismo. O poder público não chega aqui, por isso que cada vez mais nos empenhamos para ajudar todos os moradores e, principalmente, a mulherada. Somos a nossa transformação.”

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